quinta-feira, 19 de julho de 2012

Temei-vos, fundamentalismo e ditadura voltaram à política brasileira.


Teoricamente o Brasil  é um país democrático e laico, com isso, os políticos deveriam ir a palanques discutir maneiras de melhorar a vida da população com propostas nas áreas da saúde, educação e segurança. Mas não é isso que vem acontecendo. 

Liderado pela bancada evangélica, o Congresso Nacional virou um verdadeiro monastério da nova inquisição. Pastores neopentecostais (Igrejas Deus é Amor, Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus, entre outras), eleitos por seus fiéis ensandecidos e de cultura baixa, vem protagonizando cenas das mais vergonhosas e nojentas. 



Recentemente, o Dep. Federal ‘Evangélico’, diga-se de passagem, João Campos (PSDB-GO), lançou no Congresso a PEC 99/11, que dar direitos a religiosos, inclusive, ele e a igreja a qual pertence, de constitucionalidade e inconstitucionalidade as leis propostas pelo STF.  Isso significa que os fundamentalistas teriam como revogar e alterar todas as decisões tomadas pelo alto escalão da justiça nacional. Sério? Sim. Parece piada, mas é isso mesmo.

A mesma bancada rsmpre enterrompe a votação  da proposta de caráter social e necessária ,e criminalizar a homofobia, a PLC 122, crime de discrinação a comunidade LGBT. A legação deles é as das mais descabidas possíveis. Os deputados evangélicos alegam que isso tiraria deles a liberdade de ‘falar mal’ dos homossexuais. Mas, que direito eles têm de julgar alguém? O discurso ainda é pior e seria cômico se não fosse trágico. Quando são acusados de perseguição a seres humanos em nome de Deus, eles dizem que não tem nada contras os homossexuais, e que apenas não querem perder o direito da 'liberdade de expressão' .Fiquei até com pena deles! 

Enquanto isso, esse país ‘democrático’ chamado Brasil está no topo dos que mais agridem gays no mundo. País do carnaval e da alegria? Hum! Será que eles, adoradores de Deus, se sentem felizes e satisfeitos com esse derramamento de sangue.

Se você acha que é só isso, se enganou. Eles, juntos com uma "psicóloga" cristã de nome Marisa Lobo inventaram uma tal de ‘cura gay’. Desde quando sentir desejo por alguém é doença? E essas loucuras são apoiadas pelo Dep. Antony Garotinho, que saiu quase que a ponta pés do governo do Rio de Janeiro, pelo sensível Dep. Jair Bolsonaro; pelo Senador Marcelo Crivela, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho de Edir Macedo, entre outros.

O fundamentalismo está sendo agregado na sociedade brasileira por pseudos cristãos que querem ter o direito de comandar o comportamento humano e restringir a liberdade de ir e vir, que é um direito constitucional. Isso deve ser barrado o quanto antes. Já imaginou as consequências de uma nova ditadura na nossa sociedade? E uma nova inquisição? Não quero nem pensar.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Os quatro pilares da imprensa livre





O dever de um jornalista em 1939 no manifesto censurado de Camus




RESUMO Em manifesto de 1939 que só veio a ser publicado na semana passada, o escritor francês propõe a discussão sobre liberdade de imprensa em termos individuais e formula os quatro recursos de que o jornalista deve lançar mão para manter-se livre, mesmo sob censura: a lucidez, a recusa, a ironia e a obstinação.


ALBERT CAMUS

tradução PAULO WERNECK


É DIFÍCIL, HOJE em dia, evocar a liberdade de imprensa sem ser tachado de extravagante, acusado de ser Mata Hari, sem se ver convencido de ser sobrinho de Stálin.
No entanto, essa liberdade, entre outras, é só um dos rostos da liberdade pura e simples, e nossa obstinação em defendê-la será compreendida se houver boa vontade para admitir que não há outra maneira de vencer de fato a guerra.

É certo que toda liberdade tem seus limites. É preciso, ainda, que eles sejam reconhecidos. Sobre os obstáculos que hoje são postos à liberdade de pensamento, aliás, já dissemos tudo o que foi possível dizer e diremos novamente, à saciedade, tudo o que nos será possível dizer.

Em particular, uma vez imposto o princípio da censura, jamais nos espantará o bastante ver que a reprodução de textos publicados na França e examinados pelos censores da metrópole seja proibida no "Soir Républicain" [jornal publicado em Argel, do qual Albert Camus era redator-chefe], por exemplo.
O fato de que, a esse respeito, um jornal dependa do humor ou da competência de um homem demonstra melhor do que qualquer outra coisa o grau de inconsciência a que chegamos.

Um dos bons preceitos de uma filosofia digna desse nome é o de jamais se derramar em lamentações inúteis diante de um estado de fato, que não pode mais ser evitado.

A questão na França não é mais a de saber como preservar as liberdades da imprensa. É a de procurar saber como, diante da supressão dessas liberdades, um jornalista pode permanecer livre. O problema não interessa mais à coletividade. Ele diz respeito ao indivíduo.

MEIOS E justamente o que nos agradaria definir aqui são as condições e os meios pelos quais, no próprio seio da guerra e de suas servidões, a liberdade pode ser não somente preservada, mas também manifestada. Esses meios são quatro: a lucidez, a recusa, a ironia e a obstinação.

A lucidez pressupõe a resistência aos movimentos do ódio e ao culto da fatalidade. No mundo de nossa experiência, é certo que tudo pode ser evitado. A própria guerra, que é um fenômeno humano, pode ser a todo momento evitada ou interrompida por meios humanos.

Basta conhecer a história dos últimos anos da política europeia para nos convencermos de que a guerra, seja ela qual for, tem causas óbvias. Essa visão clara das coisas exclui o ódio cego e o desespero que deixa estar.

Um jornalista livre, em 1939, não se desespera e luta pelo que acredita ser verdadeiro como se a sua ação pudesse influenciar o curso dos acontecimentos. Não publica nada que possa incitar ao ódio ou provocar o desespero. Tudo isso está em seu poder.

Em face da maré de besteiras, é preciso igualmente opor algumas recusas. Nenhuma das limitações do mundo leva um espírito um pouco limpo a aceitar ser desonesto. Ora, por menos que conheçamos o mecanismo das informações, é fácil nos assegurarmos da autenticidade de uma notícia.

É a isso que um jornalista livre deve dedicar a sua atenção. Pois, se ele não pode dizer o que pensa, pode não dizer o que não pensa ou o que acredita ser falso. E é assim que se mede um jornal livre: tanto pelo que diz como pelo que não diz. Essa liberdade bem negativa será, de longe, a mais importante de todas, se soubermos mantê-la.

Pois ela prepara o advento da verdadeira liberdade. Em consequência disso, um jornal independente dá a fonte de suas informações, ajuda o público a avaliá-las, repudia as cascatas, suprime as injúrias, compensa, em comentários, a uniformização das informações e, em resumo, serve à verdade na medida humana de suas forças. Essa medida, por mais relativa que seja, lhe permite ao menos recusar aquilo que nenhuma força no mundo pode fazê-lo aceitar: servir à mentira.

Chegamos, assim, à ironia. Podemos estabelecer que, em princípio, um espírito que tem gosto e os meios para impor limitações é impermeável à ironia. Não vemos Hitler, para tomar apenas um exemplo entre outros, utilizar a ironia socrática.

Conclui-se que a ironia permanece como uma arma sem precedentes contra os poderosos demais. Ela completa a recusa na medida em que permite não rejeitar o que é falso, mas muitas vezes dizer o que é verdadeiro. Um jornalista livre, em 1939, não tem muitas ilusões sobre a inteligência daqueles que o oprimem. Ele é pessimista no que diz respeito ao homem.

A cada dez verdades ditas em tom dogmático, nove são censuradas. Essa disposição ilustra com bastante exatidão as possibilidades da inteligência humana.

Ela explica também que jornais franceses como "Le Merle" ou "Le Canard Enchaîné" [jornais satíricos parisienses] possam publicar regularmente os corajosos artigos que conhecemos. Um jornalista livre, em 1939, é portanto necessariamente irônico, ainda que, volta e meia, a contragosto. Mas a verdade e a liberdade são amantes exigentes, pois têm poucos apreciadores.

OBSTINAÇÃO Com essa atitude de espírito brevemente definida, é claro que ela não se poderia sustentar de modo eficaz sem um mínimo de obstinação. Não são poucos os obstáculos à liberdade de expressão. Não são os mais graves deles que poderão desencorajar um espírito. Pois as ameaças, os empastelamentos, as perseguições geralmente obtêm na França o efeito oposto ao que propõem.

É preciso reconhecer, porém, que há obstáculos desencorajadores: a constância na tolice, a covardia organizada, a ininteligência agressiva -e por aí vai. Eis o grande obstáculo sobre o qual é preciso triunfar. A obstinação é aqui uma virtude cardeal. Por um paradoxo curioso, porém óbvio, ela se põe a serviço da objetividade e da tolerância.

Eis, portanto, um conjunto de regras para preservar a liberdade até mesmo dentro da servidão. E depois?, diremos. Depois? Não sejamos tão apressados.

Se cada francês quiser apenas manter em sua esfera tudo o que acredita ser verdadeiro e justo, se quiser ajudar de sua frágil parte a manutenção da liberdade, resistir ao abandono e divulgar sua vontade, então, e somente então, essa guerra estará ganha, no sentido profundo da palavra.

Sim, é muitas vezes a contragosto que um espírito livre deste século faz sentir a sua ironia. O que encontrar de agradável neste mundo inflamado? A virtude do homem, porém, é a de se manter diante de tudo o que o nega.

Ninguém quer recomeçar em 25 anos a dupla experiência de 1914 e de 1939. É preciso, portanto, testar um método ainda novo em folha, que seria a justiça e a generosidade. Mas estas só se exprimem nos corações já livres e nos espíritos ainda clarividentes.

Formar esses corações e esses espíritos, ou melhor, despertá-los, é a tarefa ao mesmo tempo modesta e ambiciosa que se apresenta ao homem independente. É preciso se aferrar a isso sem olhar para mais à frente. A história vai levar em conta ou não esses esforços. Mas eles terão sido feitos.


Se ele [jornalista] não pode dizer o que pensa, pode não dizer o que não pensa ou o que acredita ser falso. E é assim que se mede um jornal livre: tanto pelo que diz como pelo que não diz
Não vemos Hitler, para tomar apenas um exemplo entre outros, utilizar a ironia socrática. Um jornalista livre, em 1939, é portanto necessariamente irônico


Publicado com a gentil cessão de Catherine Camus.

Copyright Símbolo de copyright Jean e Catherine Camus